Outro:

instruções de uso*

Vilma Slomp faz uma fotografia como quem usa ser escutada. Ela mesma diz que suas imagens não constituem como "história inventada de inferno e céu". Mas são essas mesmas imagens que procuram e que formam uma voz para tantas outras vozes e para uma única voz: a voz que fala e que ao mesmo tempo escuta aquele pequeno outro, o que se joga para (e diante) de um mundo, e que mundo será mesmo este: uma circunscrição geográfica de uma ameaça e sua báscula entre vida e morte.

Se assim é, as imagens de Vísceras em Vice Versa são derradeiras até o momento em que cada uma das usas portas sejam abertas. E que, por suas brechas, entre a luz que faz om que a existência surja de uma língua materna para o grande outro seja incorporado à alma. Assim, esta série de imagens traduz momentos entre 2004 e 2006 nos quais Slomp travou consigo mesma um monólogo, uma espécie de adivinhação do inconsciente para depois dedicá-lo ao mundo externo-interior.

No meio desse percurso existe uma carta. Ou seja, aquele tom que faz com que a "língua seja a matéria da afetividade". Dentro da carta, uma vítima. Ela mesma. Um erro médico "renegociou" o que seriam as próximas imagens da fotógrafa depois da série Ilusão, iniciada em 2001. A partir daí, Slomp resolveu "publicar" um romance do que seriam os seus próximos e futuros dias, e o que poderia vir a ser o próximo e futuro entre arte e poder. Os dias que ficaram lá atrás e os que aqui estão. Eles são assim: feitos de amalgamas; de norte a sul do real; de uma voz que grita enquanto outra voz escorrega pelo corrimão.

Se existe "um céu sem rancor" como ela diz, a carta é a tradução de um mundo de hierarquias que divinizam as forças da natureza de cada uma dessas fotografias.

Se doem? Doem, sim. Doem como doeu o grito no transe desconhecido naquela madrugada de março. Doem tanto quanto pode doer a arte da razão; a máscara alheia e a sina diluída no espelho dos que mentem. Doem tão pouco (tão pouco?) quanto pode doer alguém que se rasga inteirinho para propor aos olhos alheios um ponto em comum, frágil (frágil?) como o verbo. Algo que indique ao pequeno e ao grande outro uma língua que se faça entender pelas mesmas instruções de uso: as que registram a memória do tempo e outras, que transferem para todos os lados os territórios do pensamento.

Diógenes Moura/2006

* Título de Angela Jesuino Ferretto, conferência proferida no Maison de l'Amérique Latine, maio 1999