Natural/mente

"Quand il faisait beau temps au paradis perdu"
Beaudelaire

Quando Vilma quer botar vida na foto: metáfora; quando foto na vida: metalinguagem. Mas há misturas de figuras e do símbolo verbal com o ícone. Na metáfora, a câmera registra a coisa previamente articulada em discurso, ainda que obra aparente do acaso: selecionar é obrigar a coisa a arranjar-se, posando para um significado que não sabe se é o dela: Ex-foto, Sagrada Família, Lambendo feridas, Tragédia grega, Museu, Raízes da memória. Metalinguagem: a coisa fotografa, registra, denuncia e revela a fotocâmera. O grau zero dessa operação visceral está naquela absurda, inconspícua paisagem batizada de Mar de chuva. Mas também em diálogos de nomes enganosos, ou inominadamente, em harmônicos desacordos de texturas reticulares: Curto circuito, Redenção.

Em Vilma, o cinza que escapa do negro já é alegria.

Sob o quase sarcástico juízo do olho moby-dick do Umbigo da minha mãe, vísceras e orgãos em conformações ao mesmo tempo sinistras e cômico-grotescas: Não tenho mais fígado, A língua do poder. Também em fôrmas, rosas metálicas de fitas dobradas vão ao forno crematório: Segredos de cabeceira de um Vênus hospitalar.

Requintada naive, arregala as pálpebras objetivas dos sofridos diafragmas de suas entranhas peculiares, como um corpo antagônico que auscultasse a fotografia. Ou melhor, a história da fotografia, de Nièpce a Rio Branco, passando por Atget, do Mar de chuva até uma casa de cacos de móveis desabitada por um vira-lata.

Negro canhão solar melancólico-oswaldiano apontado para olhares amigos e inimigos, a fim de mostrar-e-mostrar-se sob uma luz nada light- eis a câmera slompiana. De buracos e gretas de uma parede-muro ou de um genital barranco dadaísta, até um chocantemente belo nu juvenil sob carícias escriturais de uma samambaia, em inusitado lance a passeia a passionária e apaixonada Vilma Slomp pela dolorosa paisagem paradisíaca de sua bioluminosidade.


Décio Pignatari/Curitiba julho de 2006