Olhar é Ilusão

  A velocidade do nosso tempo é completamente diferente de todos outros tempos. O tempo, agora no limite, é zero, o tempo da contemplação; ou é máximo, o tempo da ruptura, o tempo das novas experiencias e das vertigens visuais. Nessa era impaciente e interminável do zapping, de esgotamento das manifestações das vanguardas; nessa era de transição, de turbilhão sensorial, fica difícil de "parar" o tempo e curtir com intensidade total a fotografia como a lembrança inesquecível de "nossas vidas". O poder que conferimos, ainda hoje, à fotografia, é absolutamente inquestionável. Isso talvez seja o básico e o mágico da imagem fotográfica. Uma relação duvidosa e emocional com o "real", ou como escreveu o poeta argentino Jorge Luís Borges, "aceitamos facilmente a realidade, porque talvez intuímos que nada é real".

  Este trabalho de Vilma Slomp, desenvolvidos nos últimos 10 anos, registra com singularidade e paixão, uma manifestação popular da cidade de Curitiba, típica da época natalina, e pode-se constatar o quanto a fotografia é contundente como uma verdade dialética entre a morte e a eternidade. É um equívoco "ler" essas imagens com rapidez; elas exigem tempo e reflexão. Nesse momento de transitoriedade, Curitiba, como outras cidades brasileiras, vem perdendo certas características típicas e populares, para ingressar na era da globalização, no mundo das superficialidade e da virtualidade de das relações. Atenta a esse processo, Vilma foi atras das últimas lembranças dos velhos imigrantes ou descendentes italianos, poloneses, ucranianos e alemães.

  O mundo tão tecnológico e acelerado, despertou em Vilma o desejo de captar esta manifestação cultural aparentemente deslocada do tempo, como pequenos fragmentos cotidianos que provocam no cidadão contemporâneo a capacidade de entendimento da da vida como uma coleção de detalhes de um mundo fantástico. A intenção documental e a simplicidade do ensaio, aliadas à opção técnica, recriam novas formas de ver uma manifestação estética "naif" tradicional e preservam os detalhes que pertenciam a um universo efêmero e temporal.

  Vilma soube valorizar e contextualizar seu registro: suas luzes as e cores desta série de fotografias valorizam descortinam a imaginação com intimidade e delicadeza. Talentosa, ela buscou documentar e criar uma narrativa para a beleza dos arranjos natalinos, como se fosse o olho é a memória sensível do cidadão anônimo, procurando eternizar o processo como experiência e conhecimento. Esse trabalho nos transporta para o universo das ilusões e do universo da memória.

  Roland Barthes em seu livro A Câmara Clara registra: "Neste momento monótono, surge-me inesperadamente uma fotografia: ela anima-me e eu animo-a. É, portanto assim que eu devo denominar a atração que a faz existir: uma animação. A fotografia em si mesma não animada (não acredito nas fotografias " vivas") mas ela anima-me: é o que toda aventura faz" . Essa é a magia do fotógrafo: criar uma imagem é estabelecer uma relação de êxtase com o leitor. Vilma fotografou com imaginação, soube manter o mistério das formas que sugere e envolve o espectador. Todos se reconhecem na singeleza do arranjo e nas portas, janelas e jardins que, justapostos, trazem à luz um contorno vibrante e harmonioso.

  Essa é uma das memórias da cidade que Vilma soube materializar neste ensaio, que de novo se materializa em forma de livro. No contra-fluxo da história, preocupada com as perdas do cotidiano do homem. Vilma se propôs a realizar um trabalho fotográfico que legitima a ideia que a fotografia converteu-se numa das expressões mais sensíveis e populares deste século. Desenvolveu seu ensaio pensando em imagens como fragmentos de um mapa inexistente que se (re)inventa a cada dia.

  A delicada precisão da fotógrafa deslocou a aparente documentação para o universo fantástico. O arranjo da cena dialoga com o arranjo natalino: as cores, as texturas, os planos, as linhas, mantém inexplicáveis relações entre si, caracterizando as possibilidades dinâmicas de leitura da fotografia. É tão "real", que nesse nesse universo saturado de clichês e repetições, destaca-se pela sua contemporaneidade. A experiência do tempo pode ser demonstrada de inúmeras maneiras.

  Vilma escolheu a fotografia estática, referencial, tradicional, para estranhar. As imagens duplicadas, multiplicadas, repetidas, como se todas juntas evidenciassem a visibilidade a transparência da compreensão do outro, sem o vazio do olhar nostálgico. Vilma teve consciência de realizar um trabalho documental precioso para a história da cidade e, ao mesmo tempo, soube captar o clima intimista com a simplicidade desconcertante. Eternizadas na fotografia, as manifestações natalinas populares da cidade de Curitiba, estarão vivas para sempre.

  William Faulkner casualmente criou uma excelente definição de fotografia quando escreveu "o objetivo de todos artistas é deter o movimento, que é a vida, por meios articificiais e mantê-lo fixado de tal maneira que cem anos depois, quando talvez um estranho o contemple, ele torne mais uma vez a mover-se, porque é a vida".



Rubens Fernandes Jr/1998